Aguardei pacientemente a
poeira da tristeza e da euforia que tomou conta dos vestibulandos que tentaram
vaga na Universidade Federal de Sergipe baixasse para fazer uma analise dos
resultados.
Para ter-se um panorama
geral, os números ajudam um pouco. No vestibular 2012, foram 29.334 inscritos
disputando 5.182 vagas, com 4.633 sergipanos aprovados; em 2013 foram 59.389
inscritos disputando 5.457 vagas, com 3.849 sergipanos aprovados. Tomando o
curso de medicina como parâmetro, tivemos em 2012 cerca de 80% das 100 vagas disponíveis
preenchidas por sergipanos, em 2013 este número caiu para 20%.
O primeiro fato que
chama a atenção é obviamente o número de inscritos que praticamente dobrou.
Fato facilmente explicado pela simples adoção do resultado do Enem para a
seleção das vagas. A partir daí os fatos explicam-se como em efeito dominó. A
intenção do governo federal é a de universalizar a seleção das vagas, dando
oportunidade a todos de buscar uma vaga em qualquer universidade federal no
país, e quando o governo anunciou isso nós sabíamos do ônus e do bônus que tal
medida causaria. O Brasil aplaudiu essa medida. Me causa estranheza que agora
com os resultados na mesa, fiquemos nessa disputa federalista. Da mesma forma
que aumentou o número de candidatos “não-sergipanos” aprovados na UFS, também
aumentou o número de sergipanos aprovados em universidades pelo país. Essa idéia
“protecionista” das vagas da UFS não ajuda em nada e vai de encontro ao sistema
federativo desta República.
A única situação
concreta, contra qual não existe contestação é o fracasso do ensino médio público
e privado em Sergipe! Nós achávamos que o problema estava apenas no ensino público,
mas o vestibular 2013 veio para mostrar esse erro. Durante anos, os macetes e
os “pulos do gato” foram ensinados para passar na prova de seleção da UFS.
Deparados com a nova realidade, em que uma prova que coloca em xeque o
conhecimento aglutinado e não macetes aprendidos, as instituições de ensino no
estado se mostraram frágeis. Ao invés de culpa os alunos pelo resultado “fraco”,
as instituições de ensino devem iniciar, imediatamente, uma reformulação do
modelo vigente. E isso não deve restringir-se ao ensino médio, essa reformulação
deve ir mais fundo, no ensino fundamental, de onde historicamente as
debilidades com matemática e português são mais fortes e se arrastam pelos
anos. O Enem mostrou que ensinar “métodos milagrosos” para resolver questões
não existe. E que esse modelo, onde a educação é um mero produto está falido.
Outro ponto de destaque
está diretamente relacionado à questão do ensino: a baixa pontuação dos
candidatos. Com notas em média de 600 pontos, o vestibular 2013 deu a leve
sensação de “qualquer um entra”. E o que me causa estranheza nesse ponto é que,
levando-se em consideração que para pegar o certificado de ensino médio com a
nota do Enem, basta que o aluno obtenha 450 pontos em cada disciplina da prova
objetiva e no mínimo 500 pontos na redação, totalizando uma nota média de 460.
Ou seja, dentro desses parâmetros, um aluno só pode ser considerado apto a
concluir o ensino médio se, e somente se, ele tiver nota média de 460 pontos.
Logo, alunos que passam com média de 550 pontos, 600 pontos, podem até estar
aptos, porém demonstram imensas dificuldades com os conhecimentos do segundo
grau. O mais curioso, é que vendo a lista de aprovados encontramos varias notas
abaixo da média de 460, chegando até a ter candidatos aprovados com 430
pontos!! Onde estão os parâmetros da UFS?? Parâmetros que aprovam para o ensino
superior um candidato que, perante o governo e instituições de ensino, não está
apto a concluir o ensino médio. Isso gera uma enorme confusão e salienta a idéia
de que “qualquer um entra”. Ora, se o candidato não faz uma pontuação mínima que
desclassifique. Acontecia normalmente no modelo anterior de seleção. Encher a
UFS de aluno sem critério algum, não irá aumentar a qualidade da instituição,
não fará os cursos melhorarem.
Por fim, quero ressaltar
que se não mudarmos este modelo de educação vigente, se a sociedade sergipana
não cobrar essa mudança, veremos mais situações no mínimo “estranhas”.
Cursinhos e escolas devem mudar o discurso de por em prática novas experiências.
Já ajudaria bastante parar de tratar o aluno como um atleta de alto rendimento.
Que o rendimento sirva de lição para mudar ao invés de motivar uma segregação educacional.
P.S.:
A prova do Enem tem um custo de R$ 35,00 para o candidato. Preço bem razoável para
uma prova de nível nacional e que lhe permite disputar vaga em qualquer
universidade federal do país. Além disso, para aqueles que, no ano da prova,
estiverem concluindo o ensino médio, não é cobrada nenhuma taxa. Nenhuma universidade
que participa do SiSu cobra taxa para a inscrição. A UFS não adotou o SiSu. Então
por que a UFS cobrou R$ 10,00 para os candidatos?! Se a UFS não elabora a
prova, não paga os fiscais, lanche, transporte, nada. Qual foi o custo da UFS
com a seleção 2013?? E o principal, para onde foi esse dinheiro??!!
