terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Vestibular da UFS, suas polêmicas e suas lições



Aguardei pacientemente a poeira da tristeza e da euforia que tomou conta dos vestibulandos que tentaram vaga na Universidade Federal de Sergipe baixasse para fazer uma analise dos resultados.

Para ter-se um panorama geral, os números ajudam um pouco. No vestibular 2012, foram 29.334 inscritos disputando 5.182 vagas, com 4.633 sergipanos aprovados; em 2013 foram 59.389 inscritos disputando 5.457 vagas, com 3.849 sergipanos aprovados. Tomando o curso de medicina como parâmetro, tivemos em 2012 cerca de 80% das 100 vagas disponíveis preenchidas por sergipanos, em 2013 este número caiu para 20%.

O primeiro fato que chama a atenção é obviamente o número de inscritos que praticamente dobrou. Fato facilmente explicado pela simples adoção do resultado do Enem para a seleção das vagas. A partir daí os fatos explicam-se como em efeito dominó. A intenção do governo federal é a de universalizar a seleção das vagas, dando oportunidade a todos de buscar uma vaga em qualquer universidade federal no país, e quando o governo anunciou isso nós sabíamos do ônus e do bônus que tal medida causaria. O Brasil aplaudiu essa medida. Me causa estranheza que agora com os resultados na mesa, fiquemos nessa disputa federalista. Da mesma forma que aumentou o número de candidatos “não-sergipanos” aprovados na UFS, também aumentou o número de sergipanos aprovados em universidades pelo país. Essa idéia “protecionista” das vagas da UFS não ajuda em nada e vai de encontro ao sistema federativo desta República.

A única situação concreta, contra qual não existe contestação é o fracasso do ensino médio público e privado em Sergipe! Nós achávamos que o problema estava apenas no ensino público, mas o vestibular 2013 veio para mostrar esse erro. Durante anos, os macetes e os “pulos do gato” foram ensinados para passar na prova de seleção da UFS. Deparados com a nova realidade, em que uma prova que coloca em xeque o conhecimento aglutinado e não macetes aprendidos, as instituições de ensino no estado se mostraram frágeis. Ao invés de culpa os alunos pelo resultado “fraco”, as instituições de ensino devem iniciar, imediatamente, uma reformulação do modelo vigente. E isso não deve restringir-se ao ensino médio, essa reformulação deve ir mais fundo, no ensino fundamental, de onde historicamente as debilidades com matemática e português são mais fortes e se arrastam pelos anos. O Enem mostrou que ensinar “métodos milagrosos” para resolver questões não existe. E que esse modelo, onde a educação é um mero produto está falido.

Outro ponto de destaque está diretamente relacionado à questão do ensino: a baixa pontuação dos candidatos. Com notas em média de 600 pontos, o vestibular 2013 deu a leve sensação de “qualquer um entra”. E o que me causa estranheza nesse ponto é que, levando-se em consideração que para pegar o certificado de ensino médio com a nota do Enem, basta que o aluno obtenha 450 pontos em cada disciplina da prova objetiva e no mínimo 500 pontos na redação, totalizando uma nota média de 460. Ou seja, dentro desses parâmetros, um aluno só pode ser considerado apto a concluir o ensino médio se, e somente se, ele tiver nota média de 460 pontos. Logo, alunos que passam com média de 550 pontos, 600 pontos, podem até estar aptos, porém demonstram imensas dificuldades com os conhecimentos do segundo grau. O mais curioso, é que vendo a lista de aprovados encontramos varias notas abaixo da média de 460, chegando até a ter candidatos aprovados com 430 pontos!! Onde estão os parâmetros da UFS?? Parâmetros que aprovam para o ensino superior um candidato que, perante o governo e instituições de ensino, não está apto a concluir o ensino médio. Isso gera uma enorme confusão e salienta a idéia de que “qualquer um entra”. Ora, se o candidato não faz uma pontuação mínima que desclassifique. Acontecia normalmente no modelo anterior de seleção. Encher a UFS de aluno sem critério algum, não irá aumentar a qualidade da instituição, não fará os cursos melhorarem.

Por fim, quero ressaltar que se não mudarmos este modelo de educação vigente, se a sociedade sergipana não cobrar essa mudança, veremos mais situações no mínimo “estranhas”. Cursinhos e escolas devem mudar o discurso de por em prática novas experiências. Já ajudaria bastante parar de tratar o aluno como um atleta de alto rendimento. Que o rendimento sirva de lição para mudar ao invés de motivar uma segregação educacional.

P.S.: A prova do Enem tem um custo de R$ 35,00 para o candidato. Preço bem razoável para uma prova de nível nacional e que lhe permite disputar vaga em qualquer universidade federal do país. Além disso, para aqueles que, no ano da prova, estiverem concluindo o ensino médio, não é cobrada nenhuma taxa. Nenhuma universidade que participa do SiSu cobra taxa para a inscrição. A UFS não adotou o SiSu. Então por que a UFS cobrou R$ 10,00 para os candidatos?! Se a UFS não elabora a prova, não paga os fiscais, lanche, transporte, nada. Qual foi o custo da UFS com a seleção 2013?? E o principal, para onde foi esse dinheiro??!!

Um comentário:

  1. Concordo plenamente, principalmente com a parte da pontuação baixíssima. Ouvi dizer que tiveram cursos que a mínima pontuação foi 330 a 335, nessa faixa. Acho que a diferença do enem pra o que era o vestibular, é que todas as questões são contextualizadas. Será que cursando um pré-vestibular você sairá preparado para responder a esse tipo de questão? Se querem tanto que a educação mude deveriam começar a ensinar os alunos a resolver problemas, deixar de lado aquele pensamento "não vou usar em minha vida, para que aprender?" Enfim, foi um simples comentário e comentários nem sempre mudam uma realidade.
    Mas gostei do texto;)

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