O dia 25 de julho de 2010 marca mais um dia tenebroso para a historia da Fórmula 1. Parecia replay de um triste filme. Quem não se lembra do ocorrido no GP da Áustria onde após ser o mais rápido em todo o fim de semana, o piloto Rubens Barrichello recebeu ordens da equipe Ferrari para deixar Michael Schumacher ultrapassá-lo próximo a linha de chegada. Episódios que se tornaram emblemáticos neste esporte desleal.
Uma competição em que homens correm em desigualdade de condições e a máquina decide muito mais que o piloto.
Vibramos com títulos de falsos heróis que geralmente tiveram condições muito superiores aos adversários.
Tantas vezes vemos um piloto conquistar o título em um ano e no seguinte freqüentar o pelotão intermediário em quase todas as provas. Perdeu porque piorou? Não, simplesmente porque o carro já não é o melhor.
Há pilotos brilhantes que passam a vida criticados porque nunca tiveram a sorte de contar com o melhor carro. Não sou especialista e estou aberto a argumentos contrários, mas segundo o que li o tão criticado Mansell – o desastrado, o destruidor de carros – foi depois campeão da F-1 (1992) e da Fórmula Indy em 1993, em seu ano de estréia da categoria.
Geralmente a F-1 é uma disputa limitada a pilotos de uma ou duas grandes equipes, que competem com máquinas equivalentes, como vimos nas inesquecíveis disputas entre Senna e Prost, como em 1988, quando a McLaren venceu 15 das 16 provas (oito vitórias de Senna, sete de Prost e uma de Berger da Ferrari).
Mas até o prazer de ver belas disputas está sendo tirado quando marmeladas como a que ocorreu ontem; mais uma vez comandada pela Ferrari.
De repente uma voz do além surge e diz: "Você não vai vencer esta corrida...". Essa voz vem dos boxes. E aí sim o homem decide uma corrida. Decide fora da pista.
O que aconteceu em Hockenheim foi uma vergonha!
Mas o cinismo continua incrível. Enquanto o pódio sem graça acontecia, Luca Colajanni, assessor de imprensa da Ferrari, ficou nervosinho ao ser questionado sobre jogo de equipe. "Apenas dissemos que Fernando estava mais rápido. Você deveria aprender inglês", disse, nas rádios Bandeirantes e BandNews FM.
Mas não pensem vocês que Felipe Massa é vitima nessa historia. Ele é tão culpado quanto a Ferrari. Aceitou sem questionar. Pelo menos o Rubens questionou, hesitou, o que não diminui o erro, mas demonstra mais sangue nas veias, mais humanidade.
Claro que depois de alguns desordeiros as equipes da F-1 tomaram medidas contratuais para que seus pilotos aceitem ordens da equipe para evitar determinadas situações como no GP Brasil de 1981, quando o argentino Reutemann recebeu uma ordem de Frank Williams para abrir caminho para Alan Jones apenas na segunda prova daquela temporada. Apesar dos apelos dos boxes, Reutemann não cedeu. Cruzou a linha de chegada em primeiro, 4s43 à frente de Jones. Pelo resto da temporada, a dupla da Williams continuou a se digladiar. O resultado foi péssimo para o time. Enquanto Reutemann e Jones dividiram a pontuação ao longo do ano – levaram 49 e 46 pontos, respectivamente – Nelson Piquet, da Brabham, foi campeão com apenas 50 pontos.
No ano seguinte, a história se repetiu. Mas na Ferrari, que havia eleito Gilles Villeneuve como primeiro piloto, tendo Pironi como coadjuvante. Na quarta etapa do campeonato, o GP de San Marino, Pironi e Villeneuve iniciaram uma disputa agressiva pela liderança. Preocupada, a Ferrari mandou o francês se manter na segunda posição. Pironi não só desobedeceu como foi desaforado: ultrapassou Villeneuve na última volta e venceu. A rivalidade teve um resultado trágico. Nos treinos para a corrida seguinte, na Bélgica, o canadense morreu ao bater no March de Jochen Mass enquanto tentava superar Pironi. Seis corridas depois, a dupla da Renault também passou por uma situação de insubordinação. Arnoux liderava sua corrida de casa, o GP da França, em Paul Ricard, quando recebeu ordem para ceder a ponta para seu companheiro, Alain Prost. Animado com a possibilidade de conseguir sua terceira vitória, o francês se fez de desentendido, acelerou ainda mais e venceu com 17s308 sobre Prost.
Tudo isso mostra que na F-1 e na vida profissional em geral, você tem que se impor. Mostra que tem que ser respeitado. Alonso se impôs como o piloto número um da Ferrari, e está sendo tratado desta maneira. Parabéns para ele. Não que ele seja um exemplo de vida, mas mostrou a postura de um homem vencedor, que não tem medo de criticas e que busca a vitória se impondo como o único que pode consegui-lá.
Massa precisa aprender que se ele não se impuser como fez o australiano Mark Webber da RBR, ele jamais passará de um coadjuvante. Essa desculpa de que "Sou um homem de equipe..." é pura balela. Por ser homem de equipe, Nelsinho Piquet bateu o carro no GP de Cingapura, em 2008.
A F-1 está cada vez mais mecanizada e ridícula. E nesse circo de ilusões e manipulações os únicos palhaços são os espectadores que dão prestigio a esta categoria que cada vez menos tem o direito de ser chamada de esporte.
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